• Silvia Celani

Vacinação: na contramão da razão

João Teodoro, presidente do Sistema Cofeci Creci defende a priorização de quem faz parte da “força de trabalho” como forma de ativação mais rápida da economia e o isolamento vertical!



[03/2021] De acordo com o noticiário, a vacinação teve início no Brasil em 19 de janeiro de 2021, para o primeiro grupo prioritário, o da saúde. Muito justo! Concluída a aplicação da primeira dose do imunizante para esta “linha de frente”, começaram a ser vacinados, por ordem decrescente de idade, os idosos acima de 90 anos. Hoje, 15 de março, há estados vacinando a faixa dos oitenta anos. Após o carnaval, oficialmente cancelado, mas nem tanto, houve um sério recrudescimento do vírus e já não há leitos de UTI suficientes para os infectados graves. Nem vacina para todos. O que fazer?


Em março de 2020, mal começada a pandemia, escrevi um artigo sob o título “O shutdown brasileiro”. Contrariando a maioria e a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), defendi o cancelamento do shutdown (paralisação da economia), que vinha sendo decretado de maneira totalmente desordenada por governadores e prefeitos em todo o país. Pugnei também pelo isolamento vertical e vigoroso investimento em infraestrutura da saúde. A ideia era fazer com que, apesar da pandemia, a economia continuasse funcionando, e pudéssemos evitar o seu colapso total.


Apenas para esclarecer: isolamento social é diferente de distanciamento. Este é o que estamos todos já acostumados a fazer, mesmo com o uso de máscara e os cuidados sanitários. Ou seja, manter-nos afastados de nossos interlocutores, pelo menos dois metros, e não nos cumprimentar com apertos de mão, abraços e beijinhos. O isolamento é mais rigoroso. É quando nos isolamos em casa, sem contato direto com ninguém, exceto a família. É o que estão decretando prefeitos e governadores alhures, sem considerar seus maléficos efeitos econômicos.


No isolamento horizontal, todos são obrigados a manter-se em casa, permitindo-se a circulação apenas das pessoas necessárias para manter o funcionamento da indústria, comércio e serviços essências à continuidade da vida. A tendência, por óbvio, é o colapso da economia e, com ela, de toda sociedade. Infelizmente, é o que está sendo feito nesta segunda onda do vírus. O isolamento vertical, mais lógico, é aquele em que apenas a parte da população com maior risco de contrair a doença permaneça isolada. Os demais, com todos os cuidados, saem ao trabalho.


Depois de quase um ano de pandemia, iniciamos o processo de vacinação, porém da maneira mais errada possível. O Brasil tem uma população de 212 milhões de habitantes. Destes, sem entrar no mérito do percentual ideal, cerca de 82 milhões constituem nossa força ativa de trabalho, a que mantém em funcionamento a economia. São pessoas entre 18 e 60 anos de idade. O comentário a seguir eu faço com a consciência de quem está inserido na faixa intermediária de risco, com todo o respeito e carinho pelos idosos, que também são parte de minha família.


A força de trabalho brasileira, ou seja, quem pode produzir para que possamos comer, vestir e morar, está contraindo a COVID-19 e sendo internada nos hospitais, quando encontram vaga, ou morrendo precocemente por causa da doença. Todavia os idosos, que já não trabalham e podem perfeitamente permanecer isolados em casa, estão sendo vacinados. E não temos vacina para todos. Em breve, o Brasil será um país de idosos, sem ter o que comer ou vestir. Estamos na contramão da razão!


Sobre João Teodoro:


Nascido na cidade de Sertanópolis, no Estado do Paraná, João Teodoro da Silva iniciou a carreira de corretor de imóveis em 1972. Ele é empresário no mercado da construção civil em Curitiba (PR). Graduado em Direito e Ciências Matemáticas, foi professor de Matemática, Física e Desenho na PUC/PR. É técnico em Edificações e em Processamento de Dados e possui diversos cursos de extensão universitária pela Fundação Getúlio Vargas. Foi presidente do Creci-PR por três mandatos consecutivos, presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis do Paraná de 1984 a 1986 e diretor da Federação do Comércio do Paraná. No Cofeci, atua desde 1991, quando passou a exercer o cargo de conselheiro federal, e é presidente desde 2000.