Projetos com menor impacto ambiental trarão vida longa às construtoras

Ao reduzir as tarifas de financiamento para a construção civil, o Banco Itaú quer que os empresários do setor identifiquem na redução de impactos ambientais um caminho para perenizar as empresas, disse Luiz França, Diretor de Crédito Imobiliário à Revista Sustentabilidade.

Obra Sustentável"Empresa sustentável é aquela empresa que dura 100, 200, 300 anos, permitindo que elas possam atuar em um cenário mundial," explicou França.

No início de março, o Banco Itaú anunciou a redução em 25% das tarifas de financiamento imobiliário para projetos de R$ 5 milhões ou mais. A redução das taxas de financiamento destina-se somente para uso na construção civil, sendo que, se o cliente final quiser comprar um empreendimento já construído nas práticas sustentáveis, não terá essa linha de crédito do banco.

Ao posicionar-se como um agente indutor, o banco quer incentivar o investidor a escolher por um empreendimento que não terá custos reduzidos, mas também terá um diferencial no mercado imobiliário por estar enquadrado no que se diz respeito ao meio ambiente.

Porém, não se deve pensar na sustentabilidade apenas como uma forma de ganhos financeiros, mas sim, um benefício ao planeta e à geração futura.

Revista Sustentabilidade: O desconto de 25% nas tarifas vai baratear em quanto o custo final para o tomador do financiamento?

Luiz Antonio França: Todo o financiamento que o cliente toma para produção, ou seja, para construção de um empreendimento, é composto de uma taxa de juros e tarifas de serviços. As tarifas que vão ser barateadas incluem a análise do empreendimento, a vistoria e mais outras coisas. Então é em cima dessas tarifas que existe essa redução de 25%.

Revista Sustentabilidade: Os juros ficam intocados?

França: – A questão é a seguinte, quando estamos falando de financiamento sustentável, o banco tem o papel de ser agente indutor, pois ele faz com que a empresa reflita sobre o assunto, para no final gerar uma perenidade no negócio da empresa. Empresa sustentável é aquela empresa que dura 100, 200, 300 anos, permitindo que elas possam atuar em um cenário mundial. O setor financeiro tem que agir como um indutor e fazer com que aquelas empresas reflitam sobre o assunto. Já estamos dando uma redução de tarifas, que vai depender de um questionário que a empresa vai preencher para mostrar que tem boas práticas. Após análise pelo banco, se estas boas práticas forem analisadas e se tiver realmente boas práticas, o banco vai conceder o desconto. Agora, espera-se que todo mundo tenha boas práticas.

Revista Sustentabilidade: O banco é o agente de mudança então?

França: – O banco não está pagando para que uma empresa seja sustentável. Para que a empresa faça isso, é necessário mudar internamente. Uma mudança interna que é fundamental e que vai refletir numa empresa melhor, perene, e que vai trazer também produtos diferenciados para o mercado, onde estes produtos diferenciados farão com que essa empresa venda mais. Se a empresa não perceber isso, não adianta.

Por isso que eu acredito que não estamos pagando para a empresa fazer alguma coisa. Nós estamos tomando uma atitude como agentes indutores para que a empresa reflita sobre o assunto, veja a importância do assunto, e transforme aquilo no dia-a-dia da sua empresa. No final, a sociedade como um todo terá um grande beneficio. Para o planeta é um grande beneficio. Não adianta por exemplo, pagar R$ 1 para cada pessoa economizar água porque no dia em que você parar de pagar aquele R$ 1, a pessoa deixará de economizar água. Então, o importante é mostrar para as pessoas que se elas continuarem lavando a calçada do jeito que lavam, desperdiçando água, iremos todos ter um problema no futuro. A pessoa tem que internalizar isso, e incorporar novas práticas no dia-a-dia dela. É como aquela velha história, você dá o peixe ou você ensina a pescar. Então nós estamos querendo ajudar para que as pessoas reflitam que é melhor aprender a pescar, que receber o peixe.

Revista Sustentabilidade: Qual a previsão de demanda de mercado com o lançamento dessa linha de financiamento para construções sustentáveis?

França: Nós começamos essa linha de financiamento recentemente. Temos conversado com os nossos clientes e podemos dizer que há interesse no mercado. Mas ainda não temos números para divulgar. Existe interesse até por que há várias empresas de construção civil que já estão trabalhando dentro dessa linha de sustentabilidade. Isto é muito importante e gratificante para nós sabermos que já existem várias empresas trabalhando nessa filosofia.

Revista Sustentabilidade: Quantas obras de construção civil no mercado já estão se enquadrando nessa linha de sustentabilidade?

França: Nós não temos uma estatística. Infelizmente não existe uma estatística, para nós termos esse panorama. Queria que alguma entidade de classe tivesse essa estatística relacionada a isso.

Revista Sustentabilidade: Já existem projetos sendo analisados pelo banco para essa linha de financiamento?

França: Nós estamos em conversação com cinco projetos, mas não podemos fornecer mais informações por estarmos analisando, e porque temos que ter confidencialidade com os nossos clientes.

Revista Sustentabilidade: Qual a meta do banco até o final do ano em  financiamentos nessa linha sustentável?

França: Na verdade não temos uma meta numérica. O que temos é uma campanha de esclarecimento com os nossos agentes pela qual as imobiliárias estarão alertando os clientes sobre este benefício. Mas não temos uma meta para esse ano, até porque este mercado está crescendo tanto que fica até difícil estipular uma meta em números de projetos. Mas isso não quer dizer que para os próximos anos não possamos estabelecer metas. Nosso objetivo é informar a todos a nossa meta e que todos os nossos agentes da área imobiliária deixem muito claro esse produto e sua importância para esses clientes.

Revista Sustentabilidade: Que tipo de empresa está buscando construir mais empreendimentos sustentáveis, nacionais ou estrangeiras?

França: – Grande parte da procura tem sido pelas empresas nacionais. Na verdade, se formos ver, no setor de construção civil, grande parte das empresas são de capital nacional.

Revista Sustentabilidade: Essa linha de financiamento é aberta somente para as construtoras?

França: – Sim, somente para as construtoras.

Revista Sustentabilidade: Em que lugares do Brasil essa linha de financiamento estará disponível?

França: – Para todo o Brasil. Não tem discriminação nenhuma. Nós temos que tratar com igualdade todos os nosso clientes, de todo o território nacional.

Revista Sustentabilidade: A redução nas tarifas irá compensar o aumento no custo do projeto sustentável?

França: – Quando se fala em sustentabilidade, fala-se que a empresa terá um futuro perene por 300 anos. Estamos falando por exemplo, de não faltar água para o planeta. Então se alguém fizer a conta apenas do custo, será uma visão um pouco míope. É aquilo que eu digo pra você, se a cada dia que acordar você tiver que pegar uma fichinha e escrever "hoje eu não tomei meu leite todo, joguei o resto do leite fora, se eu tivesse tomado todo eu ganharia R$ 1 porque, tem criança que passa fome", ou 'hoje eu coloquei uma roupa para lavar, ela estava limpa mas eu resolvi colocar na cesta pra lavar', então eu fiz uma coisa errada. Se você tiver que ficar contabilizando a curto prazo o dinheiro que você vai ganhar por isso, você não vai aprender. Agora, no dia em que você falar que esta roupa não está suja e eu não vou encher o copo de leite, aquilo passou a ser o seu dia-a-dia. O beneficio a longo prazo é muito maior que o de curto prazo. Sustentabilidade significa você ter um empregado que trabalha para você, e você tem que dar para ele condições de trabalho, condições de moradia para ele morar na obra, eventualmente, oferecer educação para melhorar o nível sócio-cultural dessa pessoa. Lá na frente, o que eles vão trazer de volta pra você? Nós iremos ter pessoas melhor formadas no setor, e que sem dúvida nenhuma [empresa] terá um índice de positividade muito maior. Então, sempre que se tomam medidas do ponto de vista da sustentabilidade, elas estão ligadas à perenidade da empresa. A visão de sustentabilidade é uma visão de longo prazo sempre.

Revista Sustentabilidade: O banco irá disponibilizar consultores para ajudar as construtoras a elaborarem os projetos?

França: – Não, a construtora já tem que ter esse projeto pronto, nós não iremos elaborar o projeto para ela. Se ela não tem o projeto, ela tem que arranjar uma maneira para desenvolvê-lo. E como a história do peixe, ela tem que buscar alguém para ensiná-la, para que ela aprenda o processo. O que estamos fazendo é bater na porta dela e dizer: reflita sobre o tema sustentabilidade na construção civil, por que se você for sustentável, eu até te darei uma redução na tarifa. O papel do banco é fazer um alerta para a sustentabilidade, e nesse caso, ele está sendo um condutor, ele está ajudando a sociedade.

Revista Sustentabilidade: Quais são as tecnologias que podem ser utilizadas no empreendimento que for financiado nessa linha para sustentabilidade?

França: – O reuso da água, sistemas de aquecimento solar de água, a implantação de sistemas hidráulicos que não desperdicem tanta água, promover cursos no canteiro de obras, utilizar madeira certificada. Se os funcionários da obra dormem no canteiro de obras, proporcionar local adequado. Tudo isso é muito importante dentro de todo esse contexto que estamos falando.

Revista Sustentabilidade: Essa linha de financiamento também cobrirá a manutenção do empreendimento depois de pronto?

França: – Não, essa manutenção quem faz é o condomínio. Porém o que acontece é o seguinte, se você tiver reuso de água, aquecimento através de energia solar, muito provavelmente o custo do condomínio daquele edifício deverá ser menor do que os dos edifícios convencionais, que não utilizam essas técnicas.

Revista Sustentabilidade: Essa linha de financiamento será aberta também para fomentar pesquisa e desenvolvimento de tecnologias novas e existentes?

França: – Não, essa linha é especificamente destinada para construção civil sustentável. Mas o banco tem o capital de giro sócio-ambiental, que pode ser utilizado para estes tipos de projetos.

Revista Sustentabilidade: E o comprador do imóvel, pode se beneficiar de uma linha mais barata se ele optar por comprar um imóvel sustentável?

França: – Não. Se formos ver, o cliente final já terá o grande benefício de pagar um condomínio mais barato. Então o benefício está sendo dado ao cliente final quando nós incentivamos a empresa de construção a trabalhar com sustentabilidade. E a gente não pode pensar que no mundo da sustentabilidade é só dinheiro. Nós estamos achando que podemos comprar a sustentabilidade. Não se compram bons hábitos. Sustentabilidade não é feita com dinheiro. As pessoas podem ter necessidade de dinheiro, que é importante no mundo capitalista, e é o básico para todo mundo sobreviver, mas isso não quer dizer que toda hora que uma pessoa fizer uma boa ação, tem que resultar em dinheiro para essa pessoa.

O mundo não gira em torno disso, mas em torno de si, ele gira com a necessidade de cada um criar algo que vai ser bom para o planeta, que vai ser bom para as próximas gerações. Se eu tenho em vista dois empreendimentos para comprar e eu vejo que um vai agredir o planeta, e outro não, por que comprar aquele que vai agredir o planeta? Não tem sentido pagar o mesmo preço e optar por algo que vai agredir o planeta. Eu tenho que saber que eu estou comprando um imóvel que agride menos o planeta, portanto as futuras gerações não serão penalizadas com os mesmos problemas que estamos tendo com o nosso planeta.

Revista Sustentabilidade: Mas os empreendimentos sustentáveis sempre se mostram mais caros por contas das tecnologias que são usadas. Sabemos que existe um retorno a médio e curto prazo, mas ele se mostra mais caro.

França: Eu diria o seguinte, se aceitássemos isso, até hoje estaríamos operando com as fábricas a carvão! Por que é mais barato acabar, destruir a natureza, jogar no forno a madeira e resolver o problema. [Mas] e aí? Como está o nosso país? Como é que está o mundo? Essa reflexão é que as pessoas têm que ter. Ou a gente muda, ou o mundo atinge o limite de tudo que estamos vendo, com o super-aquecimento e tudo mais. Nós iremos estar criando um problema para as futuras gerações. As pessoas têm que ter o desprendimento de perceber que já está chegando o limite para nós mudarmos as nossas atitudes.

Revista Sustentabilidade: O banco pensa em criar linha de financiamento para modernização e readequação de imóveis existentes [retrofit]?

França: – Para retrofit, estamos estudando ainda.

Revista Sustentabilidade: Qual o papel do Banco Itaú nessa questão de sustentabilidade, sendo que outros bancos já atuam fortemente como o Real, Bradesco? O que o Itaú tem feito para ser diferente?

França: Temos sempre atuado fortemente nessa questão de sustentabilidade. E não é um modismo que o banco tem feito agora. O banco tem feito isso há muitos anos. E ser uma empresa sustentável, além de tudo, é ser uma empresa reconhecida como sustentável. Um desses indicadores é ver há quanto tempo já estamos nos indicadores do Dow Jones Sustainability Index, que é um grande indicador. isso mostra que o Banco Itaú vem seguindo isto há muitos anos e revendo a importância da sustentabilidade.

 

fonte: http://www.revistasustentabilidade.com.br/noticias/201co-banco-esta-sendo-o-agente-indutor-para-se-promover-a-sustentabilidade-na-construcao-civil201d